Maersk: Brasil tem o combustível para a nova era marítima, mas faltam de portos e leis.
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Uma aposta de risco para um mercado de 50 bilhões de litros: gigante global da navegação valida testes com combustível limpo e aponta que o Brasil pode liderar a descarbonização dos oceanos, desde que supere urgentes gargalos portuários e crie um mercado regulatório seguro.

JOGO RÁPIDO : A Maersk, uma das maiores operadoras de transporte marítimo do mundo, confirmou a viabilidade técnica do uso de etanol brasileiro para movimentar seus gigantescos navios porta-contêineres. O movimento tem o potencial de criar um novo mercado capaz de demandar até 50 bilhões de litros do biocombustível globalmente. Contudo, segundo Danilo Veras, vice-presidente de Políticas Públicas e Regulatórias da Maersk o país precisará estruturar urgentemente um arcabouço regulatório robusto, garantir certificações ambientais inquestionáveis e realizar pesados investimentos em infraestrutura de abastecimento nos portos.
A transição energética nos mares está abrindo uma janela de oportunidades sem precedentes para o setor sucroenergético brasileiro. A dinamarquesa Maersk, líder global em logística conteinerizada, está avançando a passos largos na descarbonização de sua frota responsável por parte dos 3% de emissões de gases de efeito estufa gerados pelo transporte marítimo mundial. E a grande aposta atual da companhia atende pelo nome de etanol.
Os testes práticos já deixaram as pranchetas. A embarcação Laura Maersk, conhecida como o navio verde da companhia, concluiu com sucesso a operação utilizando uma mistura E10 (10% de etanol brasileiro e 90% de e-metanol) em seus gigantescos motores de dois tempos. Os resultados de lubrificação e combustão foram tão animadores que a empresa já iniciou a fase de testes com 50% de etanol (E50), com a meta declarada de avaliar motores movidos 100% a álcool no futuro. O impacto econômico dessa mudança é colossal: uma adoção global de apenas 10% de etanol no combustível marítimo (bunker) geraria uma demanda estimada em 50 bilhões de litros anuais — volume que supera com folga a produção total brasileira de 2025, na casa dos 35 bilhões de litros.
Apesar do entusiasmo e do envolvimento de grandes produtoras nacionais (como Raízen, Copersucar, Inpasa, FS e Atvos), a concretização dessa nova era logística esbarra na realidade física e burocrática do país. Danilo Veras, vice-presidente de Políticas Públicas e Regulatórias da Maersk para a América Latina, foi categórico ao avaliar o cenário: a capacidade de produzir a energia verde que o Brasil já tem; o que falta é a estrutura para entregá-la. "Hoje o nosso maior desafio é criar esse ambiente regulatório. Na parte de energia está tudo muito bem endereçado. É preciso criar infraestrutura", destacou Veras durante um evento recente do setor. Na prática, isso significa que portos estratégicos, como Santos (SP) e Suape (PE), precisarão de pesados investimentos em dutos, tancagem e terminais de abastecimento específicos para combustíveis de baixa emissão.
Além do cimento e do aço, o executivo da Maersk alertou para a guerra das certificações. O mercado europeu e asiático de navegação exige rastreabilidade rigorosa. "O nosso grande receio são os riscos ambientais associados a isso. Quando se cria pressão para dobrar a posição [de produção] no mundo, é preciso ter certeza de que não estaremos diante de greenwashing", alertou. O etanol marítimo brasileiro precisará provar, litro a litro, que não pressiona o desmatamento ou concorre de forma desleal com a produção de alimentos.
Para mitigar as incertezas externas, a estratégia sugerida pela Maresk envolve olhar primeiro para dentro de casa. A estruturação de um mercado doméstico de cabotagem movido a etanol daria ao Brasil a escala de testes e a segurança jurídica necessárias antes de exportar a solução. "Melhor do que disputar lá fora, onde mercados foram abertos e depois fechados, é desenvolver esse mercado aqui, usando a nossa costa", concluiu Veras.
O recado para o Brasil está dado: o motor já funciona, mas sem leis claras e portos modernizados, o país corre o risco de ver o navio da descarbonização zarpar sem ele.
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