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A derrocada da Yellow, a gigante centenária do transporte de cargas dos Estados Unidos

O que levou Yellow a uma situação crítica? Quais foram os principais fatores que contribuíram para o declínio da empresa? Como sua falência afetou a economia e o setor de transportes dos EUA? Essas são algumas das questões que se pretende responder aqui em análise resumida




Após acumular dívidas bilionárias e perder mercado para os concorrentes, a Yellow Corp, empresa de logística, sediada em Nashville no Estados Unidos, com quase 100 anos de história e que já foi uma das mais dominantes daquele país, anunciou no domingo (dia 6 de agosto) que entrou com pedido de falência, e que encerraria suas atividades, após enfrentar uma dívida crescente e negociações tensas com o sindicato dos caminhoneiros (Teamsters Union).


A então gigante da logística e do transporte de cargas fracionadas chegou a atender mais de 300 mil clientes nos EUA e no Canadá, empregando cerca de 30 mil funcionários, sendo 70% deles caminhoneiros.


Tempestade perfeita: Apesar do sucesso e do crescimento nas décadas anteriores, a Yellow começou a ter sérios problemas financeiros e operacionais nestas duas primeiras décadas dos anos 2000. À concorrência acirrada de novas empresas que entraram no mercado de transporte rodoviário, oferecendo preços mais baixos e serviços mais ágeis aos clientes, some-se o aumento dos custos operacionais, principalmente com combustível, manutenção e mão de obra. É bom lembrar que ela tinha uma das maiores frotas de caminhões dos EUA, mas também uma das mais antigas e menos eficientes.

Ainda por cima veio o endividamento excessivo resultado das aquisições realizadas nas décadas anteriores, o que já em 2008 estimava-se andar na casa de em 1 bilhão de dólares.


Outro componente dessa tempestade perfeita foi a recessão econômica que atingiu os EUA em 2008-2009, reduzindo a demanda por transporte de cargas e afetando o fluxo de caixa da empresa.

Diante desse cenário, tornou-se imprescindível adotar medidas drásticas para tentar reverter a situação. Fechou centenas de terminais, demitiu milhares de funcionários, renegociou contratos com fornecedores e clientes, vendeu ativos não essenciais e reestruturou a sua dívida com os credores.

A falência - As medidas adotadas, entretanto, não foram suficientes para que a agora se desviasse do fim do caminho. Em 2020 o Departamento do Tesouro Americano concedeu empréstimo de 700 milhões de dólares em virtude da pandemia. Porém, o dinheiro não foi suficiente para arcar com as dívidas.

Em 2023, veio então pedido de falência nos termos da regra norte-americana que permite à empresa com dificuldades financeiras continuar funcionando normalmente, dando-lhe um tempo para chegar a um acordo com os credores. A companhia listou ativos e passivos estimados em até 10 bilhões de dólares, com mais de 100 mil credores.


Além desse imbróglio todo vieram negociações contenciosas com o Teamsters sobre uma iniciativa interna de reestruturação destinada a aumentar a eficiência. O que recentemente evitou uma greve de 22 mil trabalhadores .


Mas, ao final, a Yellow culpou o sindicato por levá-la à falência na segunda-feira. A entidade já teria afirmado que a empresa administrava mal, apesar das concessões dos trabalhadores e do resgate federal .


A História -Inicialmente chamada YRC Worldwide, foi fundada em 1924 por A.J. Harrell, empresário que viu uma oportunidade de negócio no transporte rodoviário de cargas entre Oklahoma City e Tulsa. Na época, as ferrovias dominavam o mercado de transportes, mas Harrell apostou na agilidade e na flexibilidade dos caminhões para oferecer um serviço diferenciado aos seus clientes. O nome Yellow (amarelo) foi escolhido por ser uma cor chamativa e fácil de ser reconhecida nas estradas.

A empresa cresceu rapidamente nos anos seguintes, expandindo suas rotas para outras cidades e estados dos EUA. Em 1930, já tinha uma frota de 500 caminhões e operava em 13 estados. Em 1945, tornou-se a primeira transportadora rodoviária a obter uma licença federal para operar em todo o território norte americano. Em 1952, inaugurou o seu primeiro terminal intermodal, combinando o transporte rodoviário com o ferroviário.


A partir da década de 1960, a Yellow iniciou um processo de expansão por meio de aquisições de outras empresas do setor. Entre 1968 e 1985, comprou várias empresas como a Preston Trucking Company, uma grande transportadora do leste dos EUA; a Watson-Wyatt Transportation Company, líder no mercado de transportadoras do sul do país e a Roadway Express, outra gigante do transporte rodoviário .


Com essas aquisições, tornou-se uma das maiores empresas de transporte de carga fracionada dos EUA, atendendo clientes de diversos segmentos e indústrias. Como se sabe carga fracionada é aquela que não ocupa todo o espaço do caminhão, permitindo que diferentes remessas sejam transportadas no mesmo veículo.Todavia, esse tipo de serviço requer uma rede complexa de terminais e centros de distribuição, onde as cargas são coletadas, separadas e entregues aos destinatários

Junto com outras duas outras rivais sindicalizadas da LTL - Rodaway e Consolidated Freigt - a Yellou formava o que era considerado o "Big Thee" Mas com a desregulamentação do transporte rodoviário em 1984, o "Big Three e outras transportadoras igualmente sindicalizadas enfrentam maior concorrência das transportadoras não sindicalizadas . A Consolidated encerrou suas atividades em 2002 . Embora as não ligadas à LTL começassem com uma vantagem significativa de custos, concessões repetidas ao sindicato dos caminhoneiros ajudaram a fechar grande parte dessa lacuna. Assim como uma escassez nacional de motoristas, o que que ajudou a elevar os salários nessas empresas de transportes não sindicalizadas .


A falência da Yellow foi considerada uma das maiores da história do setor de transportes dos EUA, afetando milhares de trabalhadores, clientes, fornecedores e investidores. Gerou preocupação sobre o impacto na economia e na infraestrutura dos EUA, já que a empresa tinha uma grande participação no mercado norte-americano.A esperança é que se consiga encontrar um comprador ou um parceiro estratégico que possa injetar capital e reestruturar o negócio. Se é que isso é possível.


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